terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Adorno

Cá estamos o branco do papel e eu, Poeta Leviano,
Numa mão a pena dispersando palavras ao léu,
Na outra um lenço com resquícios e cheiro de céu.
No corpo as marcas de um desejo insano,
Na boca o sabor adocicado de repetir o profano.
Na memória marcas de lembrança cinzelada.
Que mesmo no romper da vida, volta enevoada.
Volta pra fazer ver e crer o que enfim vale a pena.
Volta no dizer de outro poeta:
“Tudo vale quando a alma não é pequena”.
Dirão “Poeta Louco”, os assim tidos normais.
Dirão “poeta impuro”, os santos e seus iguais.
Dirão “Poeta”, os que, talvez, fizeram até mais.
Dirão desejar ser matéria-prima de poesia
Mulheres de cuja a vida se entedia.

Amarildo Serafim – 21/02/2012

sábado, 21 de janeiro de 2012

Ode a Filha das Areias

Onde estás, ó Virgem Filha
Das Tribos de Ismael?
Pois, desde sempre, a muito
Tempo estou a te esperar.

Conte-me teus sonhos e,
Neles me guarde eternamente.
Encerra, tu e a mim nos sonhos,
E sonhe-os agora e sempre.

Onde estás, ó Virgem Filha?
Conta-me o teu viver,
Diga-me do teu pranto,
Se, vem ele do teu sofrer.

Sabei ó Virgem filha,
Vou retesar meu arco e flecha,
Embainharei a minha espada
De guerra não mais viverei.

Viverei do beijo seu
Do abraço seu,
Vou nutrir-me do teu mel,
Vou beber do leite seu.

Vou prestar-lhe obediência,
Vou ser sempre um guardião,
Toda habilidade da batalha
Sempre a sua disposição.

Não choreis, ó Virgem Filha,
Estou de cavalo a cavalgar.
Vou pôr-me a serviço do teu senhor
Em troca de poder te amar.

O vento que me toca a face
Enxuga as lágrimas, alivia o pranto.
A palavra da tua boca
Acalma a alma e dá acalanto.

Esperai ó Virgem filha,
Muita espera não haverá.
Entrarás em minha tenda
Amante e Mulher serás.

Teus lábios, nos lábios meus.
Teu corpo, no corpo meu.
A alma e coração, contudo,
Apenas um pra você e eu.

Amarildo Serafim - 12/2005

sábado, 24 de setembro de 2011

Ladainha das mulheres da Vida

Invocarei as mulheres todas quantas houver na vida,
Para rogar por seus filhos a padecerem na lida.
Invocarei as mulheres mortas, apesar de descrer de outra vida,
Para rogar pelos órfãos deixados sob cuidados outros na partida.

Rogai a mulher seca, que nem sequer abriga semente.
Rogai a mulher fértil, que entrega à luz seu descendente.
Rogai a que trabalha fora e aquela que vadia na rua.
Rogai a que cuida da casa e aquela que um dia vi nua.

Rogai a mulher amada, sem o intento de torná-la princesa.
Rogai a que for princesa sem a certeza de ser amada.
Rogai as mulheres das minas que vagam pelas Gerais.
Rogai as mulheres meninas evitando outras mais.

Rogai a mulher a dar-me leite e aquela sem o pão.
Rogai a mulher negra filha de dura escravidão.
Rogai a mulher magoada, a ferida, a desprezada.
Rogai a mulher que luta e aquela a sofrer calada.

Rogai a mulher descente, bem casada e carente.
Rogai a mulher lasciva, mal amada e indiferente.
Rogai a mulher esperta, cabeça erguida e pra frente.
Rogai a lavradora, cabeça baixa a carpir sem dente.

Rogai a mulher santa, roga igual a prostituta.
Rogai a mulher honesta, roga também a que for puta.
Rogai a menina tenra, roga igual a imatura,
Rogai a mulher altiva, roga também a que for viúva.

Rogai as Mulheres todas quantas hão nesse mundo,
Rogai pelo vosso útero, para que seja sempre fecundo.
Rogai por nós frutos banais de vossos ventres frugais,
Rogai com fé ardente para que não pereçam jamais.

Amarildo Serafim – 23/09/2011

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Nacionalidade: Brasileiro

Sou mais um integrante
Militante desta massa sem pão.
Filho com identidade,
Abandonado pela mão nação.

Sou mais um retirante
Sem esperança, na espera do sul.
Pra onde caminha meus passos, e
Donde espero nuvens no céu azul.

Sou garçom! Sou garçonete!
Sou trombadinha de canivete!
Tenho talvez culpa, mas não a educação,
Moro numa casa esgueirada no chiqueirão.

Sou pedreiro! Sou dona-de-casa!
Sou empregada sem patrão!
Busco já faz muito tempo,
Poder servir sem ser servidão!

Sou Índio, primeiro dono desta terra!
Sou negro, não vim aqui por minha querela!
Sou europeu, submeti toda esta gente,
Bastou-me o sinal da Cruz e o grilhão da corrente!

(Amarildo Serafim – 30/01/03)

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Brasil Folclórico

Olha Quanta imperfeição
Pra descrever o capeta,
A mula é descabeçada
O Saci é perneta.

Lobisomem, pobre coitado
É só indefinição:
É lobo que vira homem?
É homem que vira lobo?
Ou é
 lenda do sertão?

Santo Reis quanta ventura
Importado do Oriente.
Corta jaca corta tristeza
Nos janeiros de nossa gente.

Óh Boi da minha bumba,
Óh que lindo boi bumbá.
Alegra a criança adulta
E a pequena vem assustá.

Em festas do mês de junho
Comidas e fogo no terreiro.
Mocinhas fazem promessa
Para Antônio casamenteiro.

No Rio ou na Bahia,
O samba, o frevo ou a folia.
É a alegria do meu povo,
E meu povo só euforia.

Toma tchê, teu chimarrão,
Toma cá tua condução
Vá no lombo deste potro
Pra querida Viamão.

No tabuleiro da baiana
Tem muito acarajé,
Yemanjá, adoyá a mãe
Todo pescador tem fé.

Tem boi que é Caprichoso
O outro é Garantido
Lá no seio da Amazônia
Não sei qual é mais bonito.

No agreste nordestino,
Na seca do sertão,
Caminha rumo ao sul,
Rumo ao sul mais um irmão.

Nesta terra vou lhe dizer
Nasci e aqui quero morrer.
Aqui vivo e se for preciso
Por ela quero sofrer.

Nada de anglo, nada de saxão.
Quero as mulatas cabrochas
Sambando de pé no chão.

Que o Senhor do Bonfim
Bom termo dê a minha missão:
Cantar do Brasil seu Ouro,
Seu Ouro a População.

Amarildo Serafim - 08/2002

terça-feira, 5 de julho de 2011

Oração

Dera-me saber-te, Oh Sabedoria.
Saber dos teus desejos, causa da minha Euforia.
Saber dos teus prazeres, razão da minha Alegria.
Saber dos teus prantos, e porque do mundo já não és o encanto.
Não fiquem inertes meus ouvidos, ao toque doce do timbre tom de tua voz.
Que me sacie, em aqüíferas fontes cristalinas, a sede desta vida;
Vislumbre meus olhos, o Justo e a Justiça, o Puro e a Pureza,
O Belo e a Beleza, o Bem e a Bondade, bem assim: ao nato e ao natural.
Anele-se minha carne pelo Prazer, não um qualquer, mas a Pleno e à Plenitude.

Oh Sabedoria que seja, eu, prendado na arte da Compreensão.
Também dos Postulados, dos dogmas, das Leis, da Ética.
Mas acima de tudo do humano no seu máximo e no seu mínimo,
Nas suas Posses e Possessões, na sua Liberdade e Prisões,
Na sua Vitória e Limitações, na suas Dúvidas e Decisões,
No seu Triunfo e Decadência, na Lucidez e na Demência,
Na Saúde e no Padecer, no auge da Vida e no Falecer.

Prendado eu seja não só em Vida, mas em Mistérios que há na Vida.
No mistério da vida Ardente, Quente e Semovente.
No mistério da vida Quieta, Fria e Latente.
No mistério da Sabedoria, que quanto mais se Sabe menos se Conhece.
Quanto mais se Busca mais se tem a Buscar,
Quanto mais humano se torna, mais humanos temos de nos tornar.
Quanto mais se caminha para o fim, mais às origens temos de retornar.

Não que seja a vida fato cíclico, mas é mistério antagônico seu desfraldar.

(Amarildo Serafim – 13/05/2003)

sábado, 2 de julho de 2011

Nada será como agora...


A vida é um constante movimento
Quando ando desloco no espaço
Quando paro desloco no tempo.
Seja no enlevo da alma,
Ou tão só em pensamento.

Diria em boa hora desta sábia Senhora,
Não se permite adianto,
Nem tolera demoras.
É Tudo a seu tempo: Sempre "Agora".

O Depois Deixe pra vivê-lo após:
E o passado, pretérito é;
O presente esta na porta,
E seja lépido! Pois, partindo está.

O tempo perdido, jamais será vivido.
O tempo vivido, jamais será corrigido.
Jamais espere de graça,
Pois de graça é tempo perdido.

Amarildo Serafim - Sem data definida.