terça-feira, 13 de março de 2012

Poema sob encomenda...

Atendendo pedidos de mulheres não conformadas,
Ei de tecer um novo poema para as não representadas.
No tear de minhas rimas vesti mais de mulheres mil,
E ainda mais este é pouco, deste poeta varonil.

Tentei tecer por nomes, mas nomes muitos sobrarão,
Tentei tecer por idades, feitos, peitos e condição.
Ainda que eu teça dos mais belos aos milhares
Serei sempre devedor dos vossos rigorosos desejares.

Por mais que este poeta use falar das mais gerais,
Cada mulher quer ser única dispensando suas iguais.
No desejo da consciência querem ser fonte de inspiração,
no tear de poemas novos ou nas pinturas feitas a mão.

Mulheres de beleza singular dos dotes mais plurais,
como oferecer-te um conto, poema, talvez mais,
Sem insistir naqueles mesmos antigos temas,
Já cantados, repetidos, massivos ou triviais?

Dispenso dizer de flores roxas apenas pra rimar com coxas.
Tampouco quero rimas bonitas, mas na essência, das mais chochas.
Não quero evitar o feio, só pra não rimar com seio,
Não posso evitar o belo, ou não seria poema, nem meio!

Não quero usar palavras ditas como Dama ou bendita,
Uma Dama mal amada e nos altares apodrecendo benditas.
Vou evitar palavra indecente apesar de rimar caliente.
Talvez invente um termo novo para evitar o decadente.

Amarildo Serafim – 14/03/2012

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Soneto de Ana

Ana é substância, Ana é substantivo.
Ana é um nome, talvez fosse melhor adjetivo.
Ana qualifica, justifica o objetivo.
Ana por ela mesma, dispensa qualquer motivo.

Ana é delicada, é um todo de delicadeza,
Ana não fora só criada, fora esculpida sua beleza.
A mãe quisera que na essência de Ana,
Transfigurasse a essência de sua natureza.

Basta dizer que é Ana,
Ana é por ela só.
Basta Ana dizer: a voz de Ana é Dó.

Repetiria Ana para sempre.
Para sempre Ana até o além.
Quando noite digo Ana e depois de Ana amém.

Amarildo Serafim – 30/01/2003

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Adorno

Cá estamos o branco do papel e eu, Poeta Leviano,
Numa mão a pena dispersando palavras ao léu,
Na outra um lenço com resquícios e cheiro de céu.
No corpo as marcas de um desejo insano,
Na boca o sabor adocicado de repetir o profano.
Na memória marcas de lembrança cinzelada.
Que mesmo no romper da vida, volta enevoada.
Volta pra fazer ver e crer o que enfim vale a pena.
Volta no dizer de outro poeta:
“Tudo vale quando a alma não é pequena”.
Dirão “Poeta Louco”, os assim tidos normais.
Dirão “poeta impuro”, os santos e seus iguais.
Dirão “Poeta”, os que, talvez, fizeram até mais.
Dirão desejar ser matéria-prima de poesia
Mulheres de cuja a vida se entedia.

Amarildo Serafim – 21/02/2012

sábado, 21 de janeiro de 2012

Ode a Filha das Areias

Onde estás, ó Virgem Filha
Das Tribos de Ismael?
Pois, desde sempre, a muito
Tempo estou a te esperar.

Conte-me teus sonhos e,
Neles me guarde eternamente.
Encerra, tu e a mim nos sonhos,
E sonhe-os agora e sempre.

Onde estás, ó Virgem Filha?
Conta-me o teu viver,
Diga-me do teu pranto,
Se, vem ele do teu sofrer.

Sabei ó Virgem filha,
Vou retesar meu arco e flecha,
Embainharei a minha espada
De guerra não mais viverei.

Viverei do beijo seu
Do abraço seu,
Vou nutrir-me do teu mel,
Vou beber do leite seu.

Vou prestar-lhe obediência,
Vou ser sempre um guardião,
Toda habilidade da batalha
Sempre a sua disposição.

Não choreis, ó Virgem Filha,
Estou de cavalo a cavalgar.
Vou pôr-me a serviço do teu senhor
Em troca de poder te amar.

O vento que me toca a face
Enxuga as lágrimas, alivia o pranto.
A palavra da tua boca
Acalma a alma e dá acalanto.

Esperai ó Virgem filha,
Muita espera não haverá.
Entrarás em minha tenda
Amante e Mulher serás.

Teus lábios, nos lábios meus.
Teu corpo, no corpo meu.
A alma e coração, contudo,
Apenas um pra você e eu.

Amarildo Serafim - 12/2005

sábado, 24 de setembro de 2011

Ladainha das mulheres da Vida

Invocarei as mulheres todas quantas houver na vida,
Para rogar por seus filhos a padecerem na lida.
Invocarei as mulheres mortas, apesar de descrer de outra vida,
Para rogar pelos órfãos deixados sob cuidados outros na partida.

Rogai a mulher seca, que nem sequer abriga semente.
Rogai a mulher fértil, que entrega à luz seu descendente.
Rogai a que trabalha fora e aquela que vadia na rua.
Rogai a que cuida da casa e aquela que um dia vi nua.

Rogai a mulher amada, sem o intento de torná-la princesa.
Rogai a que for princesa sem a certeza de ser amada.
Rogai as mulheres das minas que vagam pelas Gerais.
Rogai as mulheres meninas evitando outras mais.

Rogai a mulher a dar-me leite e aquela sem o pão.
Rogai a mulher negra filha de dura escravidão.
Rogai a mulher magoada, a ferida, a desprezada.
Rogai a mulher que luta e aquela a sofrer calada.

Rogai a mulher descente, bem casada e carente.
Rogai a mulher lasciva, mal amada e indiferente.
Rogai a mulher esperta, cabeça erguida e pra frente.
Rogai a lavradora, cabeça baixa a carpir sem dente.

Rogai a mulher santa, roga igual a prostituta.
Rogai a mulher honesta, roga também a que for puta.
Rogai a menina tenra, roga igual a imatura,
Rogai a mulher altiva, roga também a que for viúva.

Rogai as Mulheres todas quantas hão nesse mundo,
Rogai pelo vosso útero, para que seja sempre fecundo.
Rogai por nós frutos banais de vossos ventres frugais,
Rogai com fé ardente para que não pereçam jamais.

Amarildo Serafim – 23/09/2011

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Nacionalidade: Brasileiro

Sou mais um integrante
Militante desta massa sem pão.
Filho com identidade,
Abandonado pela mão nação.

Sou mais um retirante
Sem esperança, na espera do sul.
Pra onde caminha meus passos, e
Donde espero nuvens no céu azul.

Sou garçom! Sou garçonete!
Sou trombadinha de canivete!
Tenho talvez culpa, mas não a educação,
Moro numa casa esgueirada no chiqueirão.

Sou pedreiro! Sou dona-de-casa!
Sou empregada sem patrão!
Busco já faz muito tempo,
Poder servir sem ser servidão!

Sou Índio, primeiro dono desta terra!
Sou negro, não vim aqui por minha querela!
Sou europeu, submeti toda esta gente,
Bastou-me o sinal da Cruz e o grilhão da corrente!

(Amarildo Serafim – 30/01/03)

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Brasil Folclórico

Olha Quanta imperfeição
Pra descrever o capeta,
A mula é descabeçada
O Saci é perneta.

Lobisomem, pobre coitado
É só indefinição:
É lobo que vira homem?
É homem que vira lobo?
Ou é
 lenda do sertão?

Santo Reis quanta ventura
Importado do Oriente.
Corta jaca corta tristeza
Nos janeiros de nossa gente.

Óh Boi da minha bumba,
Óh que lindo boi bumbá.
Alegra a criança adulta
E a pequena vem assustá.

Em festas do mês de junho
Comidas e fogo no terreiro.
Mocinhas fazem promessa
Para Antônio casamenteiro.

No Rio ou na Bahia,
O samba, o frevo ou a folia.
É a alegria do meu povo,
E meu povo só euforia.

Toma tchê, teu chimarrão,
Toma cá tua condução
Vá no lombo deste potro
Pra querida Viamão.

No tabuleiro da baiana
Tem muito acarajé,
Yemanjá, adoyá a mãe
Todo pescador tem fé.

Tem boi que é Caprichoso
O outro é Garantido
Lá no seio da Amazônia
Não sei qual é mais bonito.

No agreste nordestino,
Na seca do sertão,
Caminha rumo ao sul,
Rumo ao sul mais um irmão.

Nesta terra vou lhe dizer
Nasci e aqui quero morrer.
Aqui vivo e se for preciso
Por ela quero sofrer.

Nada de anglo, nada de saxão.
Quero as mulatas cabrochas
Sambando de pé no chão.

Que o Senhor do Bonfim
Bom termo dê a minha missão:
Cantar do Brasil seu Ouro,
Seu Ouro a População.

Amarildo Serafim - 08/2002