terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Pelos trigais maduros

São as horas todas do dia,
O dia em todas as horas,
Tua presença sempre me guia,
Tua ausência me devora.

Me consomem a força e a mente
Confabular teus todos trajetos.
Imaginar teus todos os atos,
Descobrir teus momentos secretos.

Doce mulher de madeixas vitrais,
Translúcidos cachos ao prata lunar,
Maltados, cevados aos solares invernais.

Busco-te pela noite, Busco-te pela cama.
Quiçá em todo canto a suspirar por quem ama.
Me perco em seus cabelos como em trigal maduro.

domingo, 9 de novembro de 2014

Breve Soneto do Tempo (ou do tempo que ainda se tem)

Que tal fazermos como nos velhos tempos,
Ao invês de postar na rede, arquivar no pensamento?
Ao invés de tudo guardar, para pinçar um só instante,
Deixar a vida decantar e ver o que boia, obstante.

Porque a vida não é o que fica e sim o que marca.
Tampouco o que cinje, mas o que desata.
E o coração é o garimpeiro de tudo que a memória retém,
É ele que separa do tempo que tivemos o que levamos ao que se tem.

Ah tempo, sábio tempo! Breve tempo!
Quem me dera tê-lo inteiro.Não apenas um momento.
Te quero ao meu dispor e não quero ser teu passatempo.

Ah tempo, ingrato tempo, urgente tempo tiritante.
Para que tanta brevidade, redundante urgência temporal?
Sempre exististe e existirás, contudo nunca foste tão escasso.

sábado, 5 de outubro de 2013

Estética de Poesia

Poesia é a arte de associar palavras
Suscitando emoções do poeta em seus leitores,
Senão as que ele quis, ao menos as que o leitor entendeu haver,
Pois a poesia só é do poeta quando nasce.

Poesia é esta arte de associação de frases,
Curtas ou longas, depende do interesse do poeta.
O poeta é o oleiro que do barro das palavras informes
Modela com as mãos os significados pretendidos.

Poesia, como pintura ou fotografia, é pictórica
Ou se diz o que ela é dizendo-a, ou dela nada se diz.
Ou a ela se reproduz como tal, fielmente,
Ou nenhuma palavra bastará como sinônimo.

É para isso que serve poesia, retratar com palavras,
Congelar um instante irrepetível de emoção.
Congelar, na esperança vaga, que o leitor
Tomando a integra poética sinta a integra do que sente o poeta.

E assim, de mão em mão, suscitando emoção,
Não a mesma do poeta, quase sempre indiferença,
A poesia, como um rio, se distância da nascente,
Mantendo do poeta só o nome e do leito as emoções agregadas.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Metáforas da Vida


A vida é para a morte o que o rio é para o mar.
Barco de remo ou vela descendo lépido a singrar.
Destino, caminho: questão de conjectura.
És água no rio, no mar: questão de nomenclatura.

A morte vem na ponta da vida, na vazante do rio no mar.
Como se fosse lã de tecedeira virando colcha no seu tear.
É uma emenda no fio da trama que se vai tornando vida.
É rio se tornando mar, é morte concluindo a vida.

Seria a vida um disfarce colorido e alegre para a morte?
Seria possível esticar a linha mudar sua cor ou sorte?
Mas tú, vida, linha pouca e fina linha já extingue.
Ó vida carretel miúdo, pouca linha e linha dura.

Resta apenas servir da vida para fazer renda e tecitura.
Renda em flor que alegra e encanta ou cobertor de candura.
Flor de renda, ainda que renda, os anos vivos de amargura.
Tecido para envolver o cadáver derradeira armadura.

domingo, 21 de abril de 2013

Inquietas Sombras

Visitam-me inquietas sombras sem corpo
Das vidas outras que não foram e nunca serão,
Das vidas outras que nunca vieram
Que talvez venham, talvez não.

Velas bruxuleantes de esmaecido brilho
Projetam inquietas sombras sem corpo
Pela noite, pelo ladrilho, pelo quarto,
Oh Sombras, fantasmas sois de arrependimentos.

Inquietas Sombras sem corpo desfilam formas,
deslizam informes polimorfas, desejos e frustrações.
Que entidades serão estas inquietantes Sombras?
Fantasmas do passado ou apenas sombra na escuridão?

Oh. Inquietas Sombras sem corpo a roto,
mesmo no escuro se destacam persistentes.
O corpo que lhes faltam, Oh inquietantes Sombras,
Lhes neguei existência quando optei pelo que sou.


sábado, 20 de abril de 2013

Nau Frágil


No barco da vida que navego cego
O mar bravio de desencantos e desencontros.
Hora lançado as costas rochosas escarpadas,
Hora soprado por vento forte mar adentro.

Sem mapa, sem vela, sem direção,
Sem remo, sem leme ou tripulação.
Preso ao timão finjo dar sentido e rumo ao barco
Que vai levado pelas correntes de Netuno.

Ventos, tempestades, oceanos abissais
Parecem querer sugar-me, num instante não mais.
Abatem as ondas torpes ao casco da embarcação.
As tábuas simulam quebrar, mas o desejo diz não.

A vida não é remar, tampouco dar direção,
A vida não tem leme, apenas ilusório Timão.
Somos náufragos no mar de incertezas,
vivendo de sim quando tudo parece que não.

Amarildo Serafim – 17/04/2013

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Amor Proibido


Quisera eu ser o primeiro teu,
Tu que foste já de tantos.
E se não apenas lhe tirar suspiros,
Também tirar-lhe o pranto.

Teus lábios que a outros lábios satisfez,
Teu corpo que assim moreno
Seja agora a nossa vez.
Dar asas a vontade, dar verdade a vossa tez.

Vivamos o mesmo amor que era pecado.
Amor tratado com repressão e condenação.
Amor feito com a carne, a carne do coração.
Temperado com vontade, bem como emoção.

Que se queime na superfície
Do teu corpo quente, o incenso e a sensibilidade.
Tua contrição e tua vaidade.
Caiam, enfim, os tecidos que impedem a libido.

Elevada a uma nova dimensão de sensação.
Arrebatado, então, de volta pelo calor e frisson.
Deleite-me em você, deleite-se de mim.
Enfim, relaxados, deixe-se, tu em mim eu em você.