domingo, 17 de fevereiro de 2013

Dama de Ouro

Queria no espaço que existe
Entre um braço e outro meu
Estivesse a Dama mais bela,
A Dama de Ouro! Bela em apogeu.

Quero-a não só fechada em copas, mas ativa
lasciva, subversiva e efervescente.
Quero-a não só para um beijo lancinante,
Mas carente, caliente e envolvente.

Dama de cabelos dourados e tão clara tez,
que só mais clara a noite prata de luar.
Revela-me segredos do casulo onde dormes,
Revela-me um lugar ao seu lado, não me tolhes.

Vivamos com intensidade “ais” nos teus lençóis
o frisson de um dia, ao menos, só pra nós.
Mesmo que seja, de agora em diante,
viver suportando marcas de saudade algoz.


Amarildo Serafim – 19/07/2011

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Eu quero uma luz...


Eu quero uma luz que guie pra fora,
ainda que parca e tímida, mas que seja agora.
Eu quero uma luz, no escuro de noite sem fim.
Luz que ilumina os caminhos e as feridas em mim.

Preferiria que fosse a luz de um ou dois sóis.
Pra acabar com a noite eterna que paira sobre nós.
Eu quero luz, luz simples que puder eu ter ou merecer,
Luz sobre as sombras e as penumbras feito lençóis.

Eu quero que me acendam uma luz das fracas ou qualquer,
Luz que leve à porta e aclare a rota torta, quais curvas de mulher.
Luz pelas trilhas vagas, de vaga-lume que seja, é meu ensejo,
Que quebre a densidade sufocante desta ausência de luz qualquer.

Ah como eu quero que da luz que me desses fosse a de maior brilho,
Mas quão necessitado, envolto em trevas, da luz me venha um raio só.
Para tocar minha pele esbranquiçada, desacostumada de solar efeito,
Perfeito! Isso quero: uma luz entre bem desse jeito.
Ou quero uma porta para findar a dor do leito? 

Amarildo Serafim - 01/02/2013

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Lamento das Pedras

Que Lembranças eram estas
ali nas pedras tão dormentes?
Que dizeres, que pensares 
repousam ali eternamente?


Que atos de fatos eram
para um olhar tão reticente?
Olhar de quem busca afagos 
por existir tão decadente.


Apesar da pedra nua nada há de aparente. 
Nada que dê notícia, dê resposta convincente.
Apesar das palavras sobrou um olhar tão tristemente.
Como que a busca de uma pista perdida ou latente.


Escorrida há tantos anos mais ainda assim aparente
Pelos entres de tantas pedras escorreu foi vida de gente, 
Que apesar de perdidas por tais tantos de entres 
ainda persistem em ser vida num ser tão semovente.


Foram-se indo meio às pressas ou 
escorrendo qual vela em procissão. 
Sobrou-se foi só, só no mundo tão demente, 
sem moedas e terras, só pedras, só sementes.


Pedras de muitas frestas; 
Frestas com muitos entres.
Contendo esperanças parcas,
Esperanças parcas de gente.


Amarildo Serafim (15/07/2012)

sábado, 16 de junho de 2012

Toada com um velho amigo


A vida conspirou contra nossos planos, velho amigo, 
ainda que hoje sejamos felizes pelos caminhos outros 
que nos conduziu, a mesma vida, que nos desviou daqueles.
Quantos projetos incompletos, mais que isso, 
no ainda papel, hão de aí permanecer. Onde estão?.
Quantas bocas desejadas deixamos de beijar, 
ainda que tantas outras surgiram neste lugar.
Quantas camas e quantos corpos ficamos a desejar, 
ainda que outras camas e corpos não deixamos de frequentar.
Quantos copos e garrafas entornamos sem pensar,
ainda que agora sofremos pelos que nuncanos vão embriagar.
Bar em bar fechando as portas aproximar se faz o dia, 
emoldurando com alvorada nossa efêmera alegria.
Quantos devaneios, filosofias, “dados” e aleatórios,
ainda que em guardanapo não registramos o parlatório.
Suspeitamos portar solução para os males do mundo, 
alheios ao mal de nossa própria alma evanescente.
Será que a vida nos deu uma rasteira? 
Levou a riqueza de nossas fantasias? 
O vigor de nossas pernas e rigor de nossa euforia?
Levou quem sabe os sonhos velhos, tacanhos, impraticáveis 
e deu-nos sonhos novos repaginados e realizáveis?
Onda foram as mulheres? E a máquina de música?
E as prostitutas sempre sorridentes lá no canto do balcão?
Abandonaram o seu ofício pois putaria não é mais profissão?
Fazer sorrir e desejar o coração de moço era mais que vocação.
As luzes apagaram, fecharam-se as portas, as moças se foram, 
a cerveja acabou, a do copo esquentou, acho que bebi demais!
O caminho longo, os passos são curtos, a coragem é pouca,
mas a cama de solteiro é quente, o dia desponta e o galo... 
puta que pariu alguém faz esse galo ficar quieto!

Amarildo Serafim - 10/06/2012

terça-feira, 13 de março de 2012

Poema sob encomenda...

Atendendo pedidos de mulheres não conformadas,
Ei de tecer um novo poema para as não representadas.
No tear de minhas rimas vesti mais de mulheres mil,
E ainda mais este é pouco, deste poeta varonil.

Tentei tecer por nomes, mas nomes muitos sobrarão,
Tentei tecer por idades, feitos, peitos e condição.
Ainda que eu teça dos mais belos aos milhares
Serei sempre devedor dos vossos rigorosos desejares.

Por mais que este poeta use falar das mais gerais,
Cada mulher quer ser única dispensando suas iguais.
No desejo da consciência querem ser fonte de inspiração,
no tear de poemas novos ou nas pinturas feitas a mão.

Mulheres de beleza singular dos dotes mais plurais,
como oferecer-te um conto, poema, talvez mais,
Sem insistir naqueles mesmos antigos temas,
Já cantados, repetidos, massivos ou triviais?

Dispenso dizer de flores roxas apenas pra rimar com coxas.
Tampouco quero rimas bonitas, mas na essência, das mais chochas.
Não quero evitar o feio, só pra não rimar com seio,
Não posso evitar o belo, ou não seria poema, nem meio!

Não quero usar palavras ditas como Dama ou bendita,
Uma Dama mal amada e nos altares apodrecendo benditas.
Vou evitar palavra indecente apesar de rimar caliente.
Talvez invente um termo novo para evitar o decadente.

Amarildo Serafim – 14/03/2012

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Soneto de Ana

Ana é substância, Ana é substantivo.
Ana é um nome, talvez fosse melhor adjetivo.
Ana qualifica, justifica o objetivo.
Ana por ela mesma, dispensa qualquer motivo.

Ana é delicada, é um todo de delicadeza,
Ana não fora só criada, fora esculpida sua beleza.
A mãe quisera que na essência de Ana,
Transfigurasse a essência de sua natureza.

Basta dizer que é Ana,
Ana é por ela só.
Basta Ana dizer: a voz de Ana é Dó.

Repetiria Ana para sempre.
Para sempre Ana até o além.
Quando noite digo Ana e depois de Ana amém.

Amarildo Serafim – 30/01/2003

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Adorno

Cá estamos o branco do papel e eu, Poeta Leviano,
Numa mão a pena dispersando palavras ao léu,
Na outra um lenço com resquícios e cheiro de céu.
No corpo as marcas de um desejo insano,
Na boca o sabor adocicado de repetir o profano.
Na memória marcas de lembrança cinzelada.
Que mesmo no romper da vida, volta enevoada.
Volta pra fazer ver e crer o que enfim vale a pena.
Volta no dizer de outro poeta:
“Tudo vale quando a alma não é pequena”.
Dirão “Poeta Louco”, os assim tidos normais.
Dirão “poeta impuro”, os santos e seus iguais.
Dirão “Poeta”, os que, talvez, fizeram até mais.
Dirão desejar ser matéria-prima de poesia
Mulheres de cuja a vida se entedia.

Amarildo Serafim – 21/02/2012